Indaiatuba

De Herói a Monstro

ABUSO SEXUAL

A Tribuna começa nesta semana a publicar uma série de reportagens a respeito do abuso sexual infantil e pedofilia, com dados estatísticos de Indaiatuba, história relatada por vítima, entrevistas com psicólogos e os órgãos públicos que fazem o atendimento às famílias das crianças abusadas e também o acompanhamento psicológico e psiquiátrico das vítimas.

Dentro de uma sala no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) da cidade, o caso foi relatado: uma mãe, um pai, a cunhada, a irmã, as avós, o avô materno e a criança são os personagens principais desse trama da vida real.

Estão em 2015. Júlia gosta de brincar de bonecas e estuda no período da manhã em uma escola municipal da cidade. No final da tarde, a menina se diverte com seu avô no quintal de casa. Gosta de brincar de pega-pega, esconde-esconde e voar em uma vassoura mágica. Hoje, Júlia não brinca mais com seu avô.

"Eles brincavam todo os dias por volta das 17h. Ele sempre foi um grande amigo e companheiro da minha filha. Eu confiava nele. Ele era o meu herói. Hoje posso dizer que ele é um monstro", comenta Karina, a mãe de Júlia.

Nessa história da vida real, Júlia não se chama Júlia e nem sua mãe se chama Karina. Também pouco importam os nomes para contar o que aconteceu com a menina Júlia, que sofria abuso de seu avô materno desde os sete anos de idade e que foi descoberto por sua mãe quando a criança estava com oito anos. "Para mim era muito difícil desconfiar. Eu me sinto muito mal em levantar uma possibilidade que talvez não seja verdade. Sendo na sua família, é mais complicado ainda", afirma a mãe.

Na realidade, Roberto é padrasto de Karina. Ele começou a conviver com ela desde que tinha um ano de idade. "Minha irmã e minha mãe tinham ciúmes da nossa relação. Eu adorava meu pai. Sim, eu considerava ele o meu pai. Ele era a parte emocional da minha família e a minha mãe, Maria, sempre foi a racional. A menina dos olhos dele era a minha filha Júlia", recorda.

A mãe e o pai de Karina eram de São Paulo e resolveram mudar para Indaiatuba em 2014 a fim de ficar mais próximos da filha. Um quintal dividia a casa de Karina e sua sogra, e ela vivia na casa dos fundos.

Nessa época, o casamento de Karina não estava muito bem e seu marido, Felipe, hoje ex-marido, foi morar na casa da frente com sua sogra, Helena. "Ele é artista, tem trabalhos esporádicos, então nunca contei muito com o auxílio dele na questão financeira. Mas esperava um suporte dele com tudo que ocorreu com a Júlia. No entanto, o que eu tive foi a separação e muita coisa pior", conta Karina.

Relato

Durante a entrevista, Karina mostrou-se bastante contida e forte ao explicar e detalhar tudo o que acontecera com sua única filha. Momentos de lágrimas fizeram parte do relato, contudo algo a impulsionava contar toda a verdade, contar seus sentimentos e principalmente o que acontecera com sua filha e sua vida após a descoberta dos abusos.

Um dia, Karina e sua mãe, Dona Maria, estavam fazendo a jantar e o senhor Roberto e a menina Júlia brincavam no quintal. A irmã da Karina a alertou sobre uma fala que ouvira dos dois: "Eu ouvi o pai dizendo para a Júlia apagar as imagens do celular e não deixar você ver".

Karina conta que tinha achado estranho o comentário da irmã e resolveu averiguar. "Meu pai não entende muito de tecnologia e celular; eu peguei o celular dela e tinha foto do cachorro somente. Nada demais, pelo menos naquele momento".


Fonte:


Notícias relevantes: