Indaiatuba

Sumiço de macacos causa estranheza

Macacos da espécie bugio deixaram de aparecer nas propriedades rurais de Indaiatuba. O fato foi percebido pelos sitiantes no início deste ano, e causou estranheza, já que os animais habitualmente surgiam para comer as frutas nos locais.

"Percebi que eles sumiram já há alguns meses", conta José Valdomiro Secco, conhecido como seu Zezito, produtor rural do Bairro Videiras. "Sentimos falta deles no final do ano passado, porque não vieram comer as frutas do final da safra. Antes, viviam soltos, tinham até uma colônia", completa, apontando para o local onde os animais costumavam aparecer.

Segundo Cristina Harumi Adania, veterinária coordenadora da Associação Mata Ciliar, em Jundiaí, a preocupação das pessoas com a febre amarela é uma das causas mais prováveis do sumiço dos primatas. "Não apenas a febre amarela, mas a falta de conhecimento de muita gente de que os macacos não são transmissores da doença, mas sim, sentinelas que alertam a população sobre a incidênciade casos na região", reforça.

Ela revela que a Associação já recebeu, só este ano, mais de 160 macacos (entre as espécies sagui e bugio) vítimas de atropelamentos, choques elétricos e envenenamentos. "A maioria veio a óbito, e não foi por conta da doença", garante Cristina. "Apenas os 70 animais que chegaram aqui no segundo semestre de 2017 tinham os sintomas da febre amarela - abatimento, hipotermia (temperatura corporal muito baixa) e sinais hepáticos típicos da doença. Desses, 70% morreram."

Hoje, a Associação Mata Ciliar mantém entre 20 e 25 macacos em cativeiro. "A proposta é  de devolvê-los à natureza; é para isso que estamos aqui. Contudo, é preciso conscientizar as pessoas de que esses animais não são os vilões", enfatiza a veterinária.

Alerta

O Ministério da Saúde já adverte que os primatas são importantes sentinelas da doença, já que, por meio da identificação de infecções nesses animais, é possível criar ações de prevenção da febre amarela em humanos.

Os macacos são vulneráveis ao vírus, e a detecção de infecções pode ainda representar alerta às autoridades quanto à incidência da doença nos ambientes silvestres. "Temos observado um forte apelo tanto da mídia quanto do poder público alertando que os animais não têm culpa, e são tão vítimas quanto nós. Acontece que existem pessoas que não gostam de animais e acreditam que eles não servem para nada, e se aproveitam desta situação de crise para eliminar os macacos", lamenta Cristina.

No ciclo silvestre, em áreas florestais, o vetor da febre amarela é principalmente o mosquito Haemagogus e do gênero Sabethes. Já no meio urbano, a transmissão se dá através do mosquito Aedes aegypti (o mesmo da dengue). Os macacos podem desenvolver a doença silvestre de forma não aparente, mas, ter a quantidade de vírus suficiente para infectar mosquitos. O macaco não transmite a doença para os humanos, assim como uma pessoa não a transmite para outra. A transmissão se dá somente pelo mosquito.

Os impactos negativos da morte dos primatas no meio ambiente são muito grandes. "Os macacos são dispersores de sementes, ou seja, eles se alimentam de frutas e folhas, e através das fezes, que são espalhadas em diferentes locais, eles ajudam a aumentar as áreas verdes, pois as sementes expelidas frutificam", explica.

"Assim como várias espécies, os macacos são fundamentais para o equilíbrio ambiental, e quem perde com o sumiço deles é o próprio ser humano", completa Cristina. No caso da febre amarela, esses animais são os preferidos dos mosquitos hemagogus e sabethes, que vivem nas copas das árvores. Todavia, quando os macacos desaparecem, as fêmeas do mosquito passam a voar mais baixo, com o intuito de buscar sangue humano.


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